Vírus H5N1 já devastou fazendas de gado do país, infectou até gatos e trabalhadores; autoridades ainda buscam formas de contê-lo.
Especialistas alertam que, a menos que ocorram mudanças significativas nas políticas estaduais e federais dos Estados Unidos, o vírus da gripe aviária, que tem assolado as fazendas americanas, poderá se estabelecer permanentemente no gado leiteiro. Isso significa que esse subtipo da influenza poderá, em breve, representar uma ameaça contínua para outros animais e para os seres humanos.
Até o momento, o vírus H5N1 não infecta facilmente pessoas, e o risco para o público em geral permanece baixo. Contudo, quanto mais tempo o vírus circular entre bovinos, maiores serão as chances de que ele adquira as mutações necessárias para desencadear uma pandemia de gripe.
“A janela de oportunidade para controlar o surto está se fechando. Fomos rápidos em culpar a China pelo que aconteceu com o Sars-CoV-2, mas não estamos agindo melhor agora, e é assim que as pandemias acontecem”, alertou a dra. Krutika Kuppalli, médica infectologista que até abril deste ano trabalhou na Organização Mundial da Saúde.
Seis meses após o início do surto, o H5N1 não dá sinais de recuo no gado leiteiro dos EUA ou nos trabalhadores que lidam com ele. Nas últimas semanas, o vírus se espalhou entre aves e funcionários.
Até a última quarta-feira, haviam sido registradas infecções em 192 rebanhos de gado em 13 estados e em 13 pessoas. Nove dessas pessoas trabalham em granjas avícolas próximas a fazendas de laticínios no Colorado.
No início deste mês, o estado também relatou que o H5N1 foi diagnosticado em seis gatos domésticos, incluindo dois que nunca saem de casa e não têm exposição direta ao vírus.
No entanto, questões cruciais sobre o surto permanecem sem resposta.
Os cientistas ainda não sabem quantas fazendas estão sendo investigadas para verificar a presença do vírus, quantas vacas estão infectadas em cada estado, como e com que frequência o vírus se espalha para humanos e outros animais, qual é o curso da doença em pessoas e animais, e se as vacas podem ser reinfectadas.
“Precisamos entender a extensão da circulação no gado leiteiro dos EUA, algo que ainda não sabemos”, declarou a dra. Maria Van Kerkhove, diretora interina de preparação e prevenção de pandemias da OMS. Ela elogiou os incentivos financeiros do Departamento de Agricultura para estimular os produtores rurais a cooperar com as investigações, mas ressaltou que “ainda há muito a ser feito”.
A resposta do governo ao surto pode ser comprometida pela política associada às eleições deste ano e pelo fato de que a supervisão está a cargo de um departamento federal responsável por regulamentar e promover o setor agrícola.
As autoridades federais têm minimizado os riscos para os animais, afirmando que o vírus causa apenas uma doença leve no gado. No entanto, um estudo publicado no final de julho revelou que a taxa de mortalidade das vacas nas fazendas afetadas foi duas vezes maior do que a taxa normal e que, embora não apresentassem sintomas aparentes, algumas estavam infectadas.
‘Transmissão mecânica’
Teoricamente, não há nada nesse surto que impeça sua contenção, segundo Van Kerkhove e outros especialistas, pois, ao contrário de outros vírus da gripe, essa versão do H5N1 não parece se espalhar eficientemente pela via respiratória dos bovinos.
Em vez disso, a transmissão parece ocorrer, na maioria dos casos, por meio de leite contaminado ou de partículas virais presentes em máquinas de ordenha, veículos ou outros objetos, como roupas de trabalhadores rurais.
“Na verdade, isso é uma boa notícia. Se quisermos controlar ou erradicar essa doença, só precisamos nos concentrar na transmissão mecânica ou antropogênica”, afirmou o dr. Juergen Richt, veterinário e especialista em vírus da Universidade Estadual do Kansas, que liderou o estudo.
As autoridades federais anunciaram que descobertas como essa reforçam a convicção de que podem conter o vírus. “Acredito que as medidas sejam adequadas”, disse Eric Deeble, funcionário do Departamento de Agricultura, a jornalistas em 13 de agosto, acrescentando que é possível conter o surto porque não há um reservatório do vírus na vida selvagem, ou seja, não há espécies em que o vírus esteja naturalmente presente.
No entanto, especialistas de fora do governo discordaram, afirmando que as medidas atuais não são suficientes para erradicar o surto. O vírus está enraizado em aves selvagens, incluindo aves aquáticas, e em uma ampla gama de mamíferos, como camundongos domésticos, gatos e guaxinins.
“O otimismo é uma coisa maravilhosa, mas não necessariamente traz os resultados de que precisamos. Ainda estamos em um estado de profunda confusão”, alertou Michael Osterholm, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Minnesota.
O ideal seria que as fazendas realizassem “testes em massa” do leite coletado de um grande número de vacas de uma só vez e restringissem a movimentação do gado e dos trabalhadores rurais até que o vírus fosse erradicado.
No entanto, a legislação federal exige testes apenas quando o gado é transferido de um estado para outro. E muitos estados exigem testes apenas em vacas visivelmente doentes.
Até agora, o Colorado é o único estado afetado que exige a testagem em massa do leite, decisão que levou à identificação de dez rebanhos infectados adicionais no prazo de duas semanas após a ordem emitida em 22 de julho.
O Departamento de Agricultura também tentou promover os testes por meio de um programa voluntário: das cerca de 24 mil fazendas que vendem leite no país, apenas 30 estão participando.
O programa resultou na identificação de rebanhos com vacas infectadas, o que é “uma indicação de que o sistema está funcionando conforme o planejado”, escreveu um porta-voz do departamento em uma declaração enviada por e-mail.
Risco para os negócios
Devido ao risco para seus negócios, poucos proprietários de fazendas aceitaram as ofertas de indenização para realizar testes ou adotar medidas de biossegurança. Muitos dependem de trabalhadores migrantes que temem ser deportados.
“Neste momento, essas pessoas se sentem muito vulneráveis e pouquíssimas estão dispostas a cooperar. Entre aquelas que cooperam, acho que algumas acabam se arrependendo depois”, disse o dr. Gregory Gray, pesquisador de saúde pública e doenças infecciosas da Unidade Médica da Universidade do Texas.
Até agora, o vírus não se manifestou em gado de outros países, possivelmente porque esses países não transportam animais entre fazendas na mesma escala que os americanos.
Os dados genéticos sugerem que o surto nos EUA resultou de uma única transmissão do vírus das aves para o gado, que depois se espalhou para outras partes do país. “Naquela época, havia uma grande quantidade de vírus em aves selvagens, mas isso parece ter diminuído, de modo que talvez não ocorra outro evento de propagação”, explicou Tom Peacock, especialista em vírus do Instituto Pirbright, no Reino Unido.
Segundo os cientistas, há uma pequena chance de que o vírus se espalhe pelos rebanhos suscetíveis e desapareça, pelo menos temporariamente. Mas isso pode levar meses ou até anos, se acontecer.
O cenário mais provável é que o vírus se torne enzoótico – ou seja, endêmico ou enraizado nos animais –, assim como outros vírus se tornaram nos porcos. As granjas de suínos nunca se livram de um novo vírus, porque os leitões suscetíveis são constantemente introduzidos na população.
O mesmo pode ocorrer com o gado leiteiro nos Estados Unidos, de acordo com Gray: “O que vemos nas fazendas de suínos é algo que esperamos nunca ver nas fazendas de gado leiteiro, onde várias cepas de influenza podem se misturar e gerar novos vírus.”
O surto no gado já está ameaçando as aves – e os seres humanos. O vírus encontrado em granjas avícolas do Colorado parece ter se originado no gado leiteiro e resultou no abate de 1,8 milhão de aves. Nove trabalhadores envolvidos no abate foram infectados. “Se continuar nesse ritmo, o setor de laticínios vai afundar o setor avícola. Eles receberam todos os avisos possíveis de que esse é um vírus com potencial pandêmico”, disse Peacock, referindo-se às autoridades federais.
